Cedro Plátano




Nota de intenções



A leitura do livro de René Daumal, Monte Análogo, está na génese do projecto A Ilha Invisível. Nesta obra, Daumal levanta a hipótese da existência de uma ilha/continente que, embora geograficamente e materialmente impossível, se encontra inacessível (culpa de uma anomalia de percepção, tornando esse lugar invisível ao olhar humano). Com esta ideia de Daumal, decidi fazer uma aproximação ao bairro das Terras da Costa que continha em si as características do Monte Análogo – apesar de estar próximo da cidade da Costa de Caparica e do seu acesso rodoviário principal, encontra-se velado, e o transeunte não dará conta da sua existência.

Ao chegar ao bairro das Terras da Costa, conheci Dádá, um músico de funáná e kizomba, que tem um estúdio na sua casa. A sua paixão e obsessão pela produção de músicas originais levou-me a tentar compreender melhor os seus processos de trabalho, bem como a essência das letras que escrevia para as suas melodias. Muitas das suas músicas abordavam questões de amor e de conquista. Ao apresentar-me uma das suas músicas, de seu nome Juro, recordei-me do romance de Júlio Verne, O Raio Verde.Nele, surge um acontecimento meteorológico raro onde, em certos locais do planeta, no último instante do pôr do sol, é avistado um fulminante raio verde. Júlio Verne refere, a certa altura no seu romance, que se o raio for avistado por duas pessoas simultaneamente, estas apaixonar-se-ão eternamente. Influenciado por esta ideia comecei a construir a narrativa de Dádá, personagem que para seduzir a sua amada se dedica exaustivamente à criação de uma Melodia Lunar: música que atrairá as estrelas para junto da lua, provocando uma luz de uma palidez maior do que todas as cores brancas reunidas – fenómeno cósmico que dei a designação de “des-eclipsar da Lua” e que permitirá a união de Dádá à mulher amada.



Lisboa, 12 Dezembro de 2018

Rui Almeida Paiva
Realizador